O Juiz de Paz na Roça: texto integral

Cena:
Você faz:

Cena 1

MARIA ROSA · ANINHA

Sala com uma porta no fundo. No meio uma mesa, junto à qual estarão cosendo MARIA ROSA e ANINHA.
MARIA ROSA
Teu pai tarda muito.
ANINHA
Ele disse que tinha hoje muito que fazer.
MARIA ROSA
Pobre homem! Mata-se com tanto trabalho! É quase meio-dia e ainda não voltou. Desde as quatro horas da manhã que saiu; está só com uma xícara de café.
ANINHA
Meu pai quando principia um trabalho não gosta de o largar, e minha mãe sabe bem que ele tem só a Agostinho.
MARIA ROSA
É verdade. Os meias-caras agora estão tão caros! Quando havia valongo eram mais baratos.
ANINHA
Meu pai disse que quando desmanchar o mandiocal grande há-de comprar uma negrinha para mim.
MARIA ROSA
Também já me disse.
ANINHA
Minha mãe, já preparou a jacuba para meu pai?
MARIA ROSA
É verdade! De que me ia esquecendo! Vai aí fora e traz dous limões. (ANINHA sai.) Se o MANUEL JOÃO viesse e não achasse a jacuba pronta, tínhamos campanha velha. Do que me tinha esquecido! (Entra ANINHA.)
ANINHA
Aqui estão os limões.
MARIA ROSA
Fica tomando conta aqui, enquanto eu vou lá dentro. (Sai.)
ANINHA
Minha mãe já se ia demorando muito. Pensava que já não poderia falar co senhor JOSÉ, que está esperando-me debaixo dos cafezeiros. Mas como minha mãe está lá dentro, e meu pai não entra nesta meia hora, posso fazê-lo entrar aqui. (Chega à porta e acena com o lenço.) Ele aí vem.

Cena 2

JOSÉ · ANINHA

Entra JOSÉ com calça e jaqueta branca.
JOSÉ
Adeus, minha ANINHA! (Quer abraçá-la.)
ANINHA
Fique quieto. Não gosto destes brinquedos. Eu quero casar-me com o senhor, mas não quero que me abrace antes de nos casarmos. Esta gente quando vai à Corte, vem perdida. Ora diga-me, concluiu a venda do bananal que seu pai lhe deixou?
JOSÉ
Concluí.
ANINHA
Se o senhor agora tem dinheiro, por que não me pede a meu pai?
JOSÉ
Dinheiro? Nem vintém!
ANINHA
Nem vintém! Então o que fez do dinheiro? É assim que me ama? (Chora.)
JOSÉ
Minha ANINHA, não chores. Oh, se tu soubesses como é bonita a Corte! Tenho um projeto que te quero dizer.
ANINHA
Qual é?
JOSÉ
Você sabe que eu agora estou pobre como Jó, e então tenho pensado em uma cousa. Nós nos casaremos na freguesia, sem que teu pai o saiba; depois partiremos para a Corte e lá viveremos.
ANINHA
Mas como? Sem dinheiro?
JOSÉ
Não te dê isso cuidado: assentarei praça nos Permanentes.
ANINHA
E minha mãe?
JOSÉ
Que fique raspando mandioca, que é ofício leve. Vamos para a Corte, que você verá o que é bom.
ANINHA
Mas então o que é que há lá tão bonito?
JOSÉ
Eu te digo. Há três teatros, e um deles maior que o engenho do capitão-mor.
ANINHA
Oh, como é grande!
JOSÉ
Representa-se todas as noites. Pois uma mágica... Oh, isto é cousa grande!
ANINHA
O que é mágica?
JOSÉ
Mágica é uma peça de muito maquinismo.
ANINHA
Maquinismo?
JOSÉ
Sim, maquinismo. Eu te explico. Uma árvore se vira em uma barraca; paus viram-se em cobras, em um homem vira-se em macaco.
ANINHA
Em macaco! Coitado do homem!
JOSÉ
Mas não é de verdade.
ANINHA
Ah, como deve ser bonito! E tem rabo?
JOSÉ
Tem rabo, tem.
ANINHA
Oh, homem!
JOSÉ
Pois o curro dos cavalinhos! Isto é que é cousa grande! Há uns cavalos tão bem ensinados, que dançam, fazem mesuras, saltam, falam, etc. Porém o que mais me espantou foi ver um homem andar em pé em cima do cavalo.
ANINHA
Em pé? E não cai?
JOSÉ
Não. Outros fingem-se bêbados, jogam os socos, fazem exercício - e tudo isto sem caírem. E há um macaco chamado o macaco Major, que é coisa de espantar.
ANINHA
Há muitos macacos lá?
JOSÉ
Há, e macacas também.
ANINHA
Que vontade tenho eu de ver todas estas cousas!
JOSÉ
Além disto há outros muitos divertimentos. Na Rua do Ouvidor há um cosmorama, na Rua de São Francisco de Paula outro, e no Largo uma casa aonde se vêem muitos bichos cheios, muitas conchas, cabritos com duas cabeças, porcos com cinco pernas, etc.
ANINHA
Quando é que você pretende casar-se comigo?
JOSÉ
O vigário está pronto para qualquer hora.
ANINHA
Então, amanhã de manhã.
JOSÉ
Pois sim. (Cantam dentro.)
ANINHA
Aí vem meu pai! Vai-te embora antes que ele te veja.
JOSÉ
Adeus, até amanhã de manhã.
ANINHA
Olhe lá, não falte! (Sai JOSÉ.), Como é bonita a Corte! Lá é que a gente se pode divertir, e não aqui, aonde não se ouve senão os sapos e as entanhas cantarem. Teatros, mágicos, cavalos que dançam, cabeças com dous cabritos, macaco major... Quanta cousa! Quero ir para a Corte!

Cena 4

ANINHA · MANUEL JOÃO

Entra MANUEL JOÃO com uma enxada no ombro, vestido de calças de ganga azul, com uma das pernas arregaçada, japona de baeta azul e descalço. Acompanha-o um negro com um cesto na cabeça e uma enxada no ombro, vestido de camisa e calça de algodão.
ANINHA
Abença, meu pai.
MANUEL JOÃO
Adeus, rapariga. Aonde está tua mãe?
ANINHA
Está lá dentro preparando a jacuba.
MANUEL JOÃO
Vai dizer que traga, pois estou com muito calor. (ANINHA sai. M. JOÃO, para o negro:) Olá, Agostinho, leva estas enxadas lá para dentro e vai botar este café no sol. (O preto sai. MANUEL JOÃO senta-se.) Estou que não posso comigo; tenho trabalhado como um burro!

Cena 5

MANUEL JOÃO · MARIA ROSA · ANINHA · ESCRIVÃO DO JUIZ · MARIA ROSA E MANUEL JOÃO · MARIA ROSA E ANINHA

Entra MARIA ROSA com uma tigela na mão, e ANINHA a acompanha.
MANUEL JOÃO
Adeus, senhora MARIA ROSA.
MARIA ROSA
Adeus, meu amigo. Estás muito cansado?
MANUEL JOÃO
Muito. Dá-me cá isso?
MARIA ROSA
Pensando que você viria muito cansado, fiz a tigela cheia.
MANUEL JOÃO
Obrigado. (Bebendo:) Hoje trabalhei como gente... Limpei o mandiocal, que etava muito sujo... Fiz uma derrubada do lado de FRANCISCO ANTÔNIO... Limpei a vala de Maria do Rosário, que estava muito suja e encharcada, e logo pretendo colher café. ANINHA?
ANINHA
Meu pai?
MANUEL JOÃO
Quando acabares de jantar, pega em um samborá e vai colher o café que está à roda da casa.
ANINHA
Sim senhor.
MANUEL JOÃO
Senhora, a janta está pronta?
MARIA ROSA
Há muito tempo.
MANUEL JOÃO
Pois traga.
MARIA ROSA
ANINHA, vai buscar a janta de teu pai. (ANINHA sai.)
MANUEL JOÃO
Senhora, sabe que mais? É preciso casarmos esta rapariga.
MARIA ROSA
Eu já tenho pensado nisto; mas nós somos pobres, e quem é pobre não casa.
MANUEL JOÃO
Sim senhora, mas uma pessoa já me deu a entender que logo que puder abocar três ou quatro meias-caras destes que se dão, me havia de falar nisso... Com mais vagar trataremos deste negócio. (Entra ANINHA com dous pratos e os deixa em cima da mesa.)
ANINHA
Minha mãe, a carne-seca acabou-se.
MANUEL JOÃO
Já?!
MARIA ROSA
A última vez veio só meia arroba.
MANUEL JOÃO
Carne boa não faz conta, voa. Assentem-se e jantem. (Assentam-se todos e comem com as mãos. O jantar consta de carne-seca, feijão e laranjas.) Não há carne-seca para o negro?
ANINHA
Não senhor.
MANUEL JOÃO
Pois coma laranja com farinha, que não é melhor do que eu. Esta carne está dura como um couro. Irra! Um dia destes eu... Diabo de carne!... hei-de fazer uma plantação... Lá se vão os dentes!... Deviam ter botado esta carne de molho no corgo... que diabo de laranjas tão azedas! (Batem à porta.) Quem é? (Logo que MANUEL JOÃO ouve bater na porta, esconde os pratos na gaveta e lambe os dedos.)
ESCRIVÃO DO JUIZ
Dá licença, Senhor MANUEL JOÃO?
MANUEL JOÃO
Entre quem é.
ESCRIVÃO DO JUIZ
Deus esteja nesta casa.
MARIA ROSA E MANUEL JOÃO
Amém.
ESCRIVÃO DO JUIZ
Um criado da Senhora Dona e da Senhora Doninha.
MARIA ROSA E ANINHA
Uma sua criada. (Cumprimentam.)
MANUEL JOÃO
O senhor por aqui a estas horas é novidade.
ESCRIVÃO DO JUIZ
Venho da parte do senhor juiz de paz intimá-lo para levar um recruta à cidade.
MANUEL JOÃO
Ó homem, não há mais ninguém que sirva para isto?
ESCRIVÃO DO JUIZ
Todos se recusam do mesmo modo, e o serviço no entanto há-de se fazer.
MANUEL JOÃO
Sim, os pobres é que o pagam.
ESCRIVÃO DO JUIZ
Meu amigo, isto é falta de patriotismo. Vós bem sabeis que é preciso mandar gente para o Rio Grande; quando não, perdemos esta província.
MANUEL JOÃO
E que me importa eu com isso? Quem as armou que as desarme.
ESCRIVÃO DO JUIZ
Mas, meu amigo, os rebeldes têm feito por lá horrores!
MANUEL JOÃO
E que quer o senhor que se lhe faça? Ora é boa!
ESCRIVÃO DO JUIZ
Não diga isto, Senhor MANUEL JOÃO, a rebelião...
MANUEL JOÃO
E que me importa eu com isso?... E o senhor a dar-lhe...
ESCRIVÃO DO JUIZ
O senhor juiz manda dizer-lhe que se não for, irá preso.
MANUEL JOÃO
Pois diga com todos os diabos ao senhor juiz que lá irei.
ESCRIVÃO DO JUIZ
Em boa hora o digas. Apre! custou-me achar um guarda... Às vossas ordens.
MANUEL JOÃO
Um seu criado.
ESCRIVÃO DO JUIZ
Sentido nos seus cães.
MANUEL JOÃO
Não mordem.
ESCRIVÃO DO JUIZ
Senhora Dona, passe muito bem. (Sai o ESCRIVÃO.)
MANUEL JOÃO
Mulher, arranja esta saia, enquanto me vou fardar. (Sai M. João.)

Cena 6

MARIA ROSA · ANINHA

MARIA ROSA
Pobre homem! Ir à cidade somente para levar um preso! Perder assim um dia de trabalho...
ANINHA
Minha mãe, pra que é que mandam a gente presa para a cidade?
MARIA ROSA
Pra irem à guerra.
ANINHA
Coitados!
MARIA ROSA
Não se dá maior injustiça! Manoel João está todos os dias vestindo a farda. Ora pra levar presos, ora pra dar nos quilombos... É um nunca acabar.
ANINHA
Mas meu pai pra que vai?
MARIA ROSA
Porque o juiz de paz o obriga.
ANINHA
Ora, ele podia ficar em casa; e se o juiz de paz cá viesse buscá-lo, não tinha mais que iscar a Jibóia e a Boca-Negra.
MARIA ROSA
És uma tolinha! E a cadeia ao depois?
ANINHA
Ah, eu não sabia.

Cena 7

MANUEL JOÃO · ANINHA · MARIA ROSA · MARIA ROSA E ANINHA

Entra MANUEL JOÃO com a mesma calça e jaqueta de chita, tamancos, barretina da Guarda Nacional, cinturão com baioneta e um grande pau na mão.
MANUEL JOÃO
Estou fardado. Adeus, senhora, até amanhã. (Dá um abraço.)
ANINHA
Abença, meu pai.
MANUEL JOÃO
Adeus, menina.
ANINHA
Como meu pai vai à cidade, não se esqueça dos sapatos franceses que me prometeu.
MANUEL JOÃO
Pois sim.
MARIA ROSA
De caminho compre carne.
MANUEL JOÃO
Sim. Adeus, minha gente, adeus.
MARIA ROSA E ANINHA
Adeus! (Acompanham-no até a porta.)
MANUEL JOÃO
Não se esqueça de mexer a farinha e de dar que comer às galinhas.
MARIA ROSA
Não. Adeus! (Sai MANUEL JOÃO.), Menina, ajuda-me a levar estes pratos para dentro. São horas de tu ires colher o café e de eu ir mexer a farinha... Vamos.

Cena 8

ANINHA

ANINHA
Vamos, minha mãe. (Andando:) Tomara que meu pai não se esqueça dos meus sapatos... (Saem.)

Cena 9

JUIZ DE PAZ · ESCRIVÃO DO JUIZ

Sala em casa do juiz de paz. Mesa no meio com papéis; cadeiras. Entra o juiz de paz vestido de calça branca, rodaque de riscado, chinelas verdes e sem gravata.
JUIZ DE PAZ
Vamo-nos preparando para dar audiência. (Arranja os papéis.) O escrivão já tarda; sem dúvida está na venda do Manuel do Coqueiro...
JUIZ DE PAZ
O último recruta que se fez já vai-me fazendo peso. Nada, não gosto de presos em casa. Podem fugir, e depois dizem que o juiz recebeu algum presente. (Batem à porta.) Quem é? Pode entrar.
JUIZ DE PAZ
(Entra um preto com um cacho de bananas e uma carta, que entrega ao juiz. JUIZ, lendo a carta:) "Il. mo Sr. - Muito me alegro de dizer a V. S. ª que a minha ao fazer desta é boa, e que a mesma desejo para V.
JUIZ DE PAZ
S. ª pelos circunclóquios com que lhe venero". (Deixando de ler:) Circunlóquios... Que nome em breve! O que quererá ele dizwer?
JUIZ DE PAZ
Continuemos. (Lendo:) "Tomo a liberdade de mandar a V. S. ª um cacho de bananas-maçãs para V. S.
JUIZ DE PAZ
ª comer com a sua boca e dar também a comer à Sr. ª Juíza e aos Srs. JUIZinhos. V. S.
JUIZ DE PAZ
ª há-de reparar na insignificância do presente; porém, Il. mo Sr. , as reformas da Constituição permitem a cada um fazer o que quiser, e mesmo fazer presentes; ora, mandando assim as ditas reformas, V. S. ª fará o favor de aceitar as ditas bananas, que diz minha Teresa Ova serem muito boas.
JUIZ DE PAZ
No mais, receba as ordens de quem é seu venerador e tem a honra de ser - MANUEL ANDRÉ de Sapiruruca. " - Bom, tenho bananas para a sobremesa. Ó pai, leva estas bananas para dentro e entrega à senhora. Toma lá um vintém para teu tabaco. (Sai o negro.) O certo é que é bem bom ser juiz de paz cá pela roça.
JUIZ DE PAZ
De vez em quando temos nossos presentes de galinhas, bananas, ovos, etc. , etc. (Batem à porta.) Quem é?
ESCRIVÃO DO JUIZ
Sou eu.
JUIZ DE PAZ
Ah, é o escrivão. Pode entrar.

Cena 10

ESCRIVÃO DO JUIZ · JUIZ DE PAZ

ESCRIVÃO DO JUIZ
Já intimei MANUEL JOÃO para levar o preso à cidade.
JUIZ DE PAZ
Bom. Agora vamos nós preparar a audiência.
JUIZ DE PAZ
(Assentam-se ambos à mesa e o juiz toca a campainha.) Os senhores que estão lá fora no terreiro podem entrar.
JUIZ DE PAZ
(Entram todos os lavradores vestidos como roceiros; uns de jaqueta de chita, chapéu de palha, calças brancas de ganga, de tamancos, descalços; outros calçam os sapatos e meias quando entram, etc. TOMÁS traz um leitão debaixo do braço.) Está aberta a audiência. Os seus requerimentos?

Cena 11

JUIZ DE PAZ · ESCRIVÃO DO JUIZ · GREGÓRIO · JOSEFA JOAQUINA · INÁCIO JOSÉ · MANUEL ANDRÉ …

INÁCIO JOSÉ, FRANCISCO ANTÔNIO, MANUEL ANDRÉ e SAMPAIO entregam seus requerimentos.
JUIZ DE PAZ
Sr. ESCRIVÃO, faça o favor de ler.
ESCRIVÃO DO JUIZ
Diz INÁCIO JOSÉ, natural desta freguesia e casado com JOSEFA JOAQUINA, sua mulher na face da Igreja, que precisa que Vossa Senhoria mande a GREGÓRIO degradado para fora da terra, pois teve o atrevimento de dar um ambigada em sua mulher, na encruzilhada do Pau-Grande, que quase a fez abortar, da qual embigada fez cair a dita sua mulher de pernar para o ar.
ESCRIVÃO DO JUIZ
Portanto pede a Vossa Senhoria mande o dito GREGÓRIO degradado para Angola. E. R. M.
JUIZ DE PAZ
É verdade, Sr. GREGÓRIO, que o senhor deu uma embigada na senhora?
GREGÓRIO
É mentira, Sr. juiz de paz, eu não dou embigadas em bruxas.
JOSEFA JOAQUINA
Bruxa é a marafona de tua mulher, malcriado! Já não se lembra que me deu uma embigada, e que me deixou uma marca roxa na barriga? Se o senhor quer ver, posso mostrar.
JUIZ DE PAZ
Nada, nada, não é preciso; eu o creio.
JOSEFA JOAQUINA
Sr. juiz, não é a primeira embigada que este homem me dá; eu é que não tenho querido contar a meu marido.
JUIZ DE PAZ
Está bom, senhora, sossegue. Sr. INÁCIO JOSÉ, deixe-se destwas asneiras, dar embigadas não é crime classificado no Código. Sr. GREGÓRIO, faça o favor de não dar mais embigadas na senhora; quando não, arrumo-lhe com as leis às costas e meto-o na cadeia. Queiram-se retirar.
INÁCIO JOSÉ
Lá fora me pagarás.
JUIZ DE PAZ
¨Estão conciliados. (INÁCIO JOSÉ, GREGÓRIO e JOSEFA [Joaquina] saem.) Sr. escrivão, leia outro requerimento.
ESCRIVÃO DO JUIZ
"O abaixo-assinado vem dar os parabéns a V. S. ª por ter entrado com saúde no novo ano financeiro. Eu, Il. " sr.
ESCRIVÃO DO JUIZ
juiz de paz, sou senhor de um sítio que está na beira do rio, aonde dá muito boas bananas e laranjas, e como vêm de encaixe, pelo a V. S. ª o favor de aceitar um cestinho das mesmas que eu mandarei hoje à tarde.
ESCRIVÃO DO JUIZ
Mas, como ia dizendo, o dito sítio foi comprado com o dinheiro que minha mulher ganhou nas costuras e outras cousas mais; e, vai senão quando, um meu vizinho, homem da raça do Judas, diz que metade do sítio é dele. E então, que lhe parece, sr. juiz, não é desaforo? Mas, como ia dizendo, peço a V. S.
ESCRIVÃO DO JUIZ
ª para vir assistir à marcação do sítio. MANUEL ANDRÉ. E. R. M.
ESCRIVÃO DO JUIZ
"
JUIZ DE PAZ
Não posso deferir por estar muito atravancado com um roçado; portanto, requeira ao suplente, que é o meu compadre Pantaleão.
MANUEL ANDRÉ
Mas, sr. juiz, ele também está ocupado com uma plantação.
JUIZ DE PAZ
Você replica? Olhe que o mando para a cadeia.
MANUEL ANDRÉ
Vossa Senhoria não pode prender-me à toa; a Constituição não manda.
JUIZ DE PAZ
A Constituição!... Está bem!... Eu, o juiz de paz, hei por bem derrogar a Constituição! Sr. escrivão, tome termo que a Constituição está derrogada, e mande-me prender este homem.
MANUEL ANDRÉ
Isto é uma injustiça!
JUIZ DE PAZ
Ainda fala? Suspendo-lhe as garantias...
MANUEL ANDRÉ
É desaforo...
JUIZ DE PAZ
Brejeiro!... (MANUEL ANDRÉ corre; o juiz vai atrás.) Pega... Pega... Lá se foi... Que o leve o diabo. (Assenta-se.) Vamos às outras partes.
ESCRIVÃO DO JUIZ
Diz João de SAMPAIO que, sendo ele "senhor absoluto de um leitão que teve a porca mais velha da casa, aconteceu que o dito acima referido leitão furasse a cerca do Sr.
ESCRIVÃO DO JUIZ
TOMÁS pela parte de trás, e com a sem-cerimônia que tem todo o porco, fossasse a horta do mesmo senhor. Vou a respeito de dizer, Sr. JUIZ, que o leitão, carece agora advertir, não tem culpa, porque nunca vi um porco pensar como um cão, que é outra qualidade de alimária e que pensa às vezes como um homem. Para V. S.
ESCRIVÃO DO JUIZ
ª não pensar que minto, lhe conto uma história: a minha cadela Tróia, aquela mesma que escapou de morder a V. S. ª naquela noite, depois que lhe dei uma tunda nunca mais comeu na cuia com os pequenos. Mas vou a respeito de dizer que o Sr. TOMÁS não tem razão em querer ficar com o leitão só porque comeu três ou quatro cabeças de nabo.
ESCRIVÃO DO JUIZ
Assim, peço a V. S. ª que mande entregar-me o leitão. E. R.
ESCRIVÃO DO JUIZ
M. "
JUIZ DE PAZ
É verdade, Sr. TOMÁS, o que o Sr. SAMPAIO diz?
TOMÁS
É verdade que o leitão era dele, porém agora é meu.
SAMPAIO
Mas se era meu, e o senhor nem mo comprou, nem eu lho dei, como pode ser seu?
TOMÁS
É meu, tenho dito.
SAMPAIO
Pois não é, não senhor. (Agarram ambos no leitão e puxam, cada um para sua banda.)
JUIZ DE PAZ
Larguem o pobre animal, não o matem!
TOMÁS
Deixe-me, senhor!
JUIZ DE PAZ
Sr. ESCRIVÃO, chame o meirinho. (Os dous apartam-se.) Espere, Sr. ESCRIVÃO, não é preciso. (Assenta-se.) Meus senhores, só vejo um modo de conciliar esta contenda, que é darem os senhores este leitão de presente a alguma pessoa. Não digo com isso que mo dêem.
TOMÁS
Lembra Vossa Senhoria bem. Peço licença a Vossa Senhoria para lhe oferecer.
JUIZ DE PAZ
Muito obrigado. É o senhor um homem de bem, que não gosta de demandas. E que diz o Sr. SAMPAIO?
SAMPAIO
Vou a respeito de dizer que se Vossa Senhoria aceitar, fico contente.
JUIZ DE PAZ
Muito obrigado, muito obrigado! Faça o favor de deixar ver. Ó homem, está gordo, tem toucinho de quatro dedos. Com efeito! Ora, Sr. TOMÁS, eu que gosto tanto de porco com ervilha!
TOMÁS
Se Vossa Senhoria quer, posso mandar algumas.
JUIZ DE PAZ
Faz-me muito favor. Tome o leitão e bote no chiqueiro quando passar. Sabe aonde é?
TOMÁS
Sim senhor.
JUIZ DE PAZ
Podem se retirar, estão conciliados.
SAMPAIO
Tenho ainda um requerimento que fazer.
JUIZ DE PAZ
Então, qual é?
SAMPAIO
Desejava que Vossa Senhoria mandasse citar a Assembléia Provincial.
JUIZ DE PAZ
Ó homem! Citar a Assembléia Provincial? E para quê?
SAMPAIO
Pra mandar fazer cercado de espinhos em todas as hortas.
JUIZ DE PAZ
Isto é impossível! A Assembléia Provincial não pode ocupar-se com estas insignificâncias.
TOMÁS
Insignificância, bem! Mas os votos que Vossa Senhoria pediu-me para aqueles sujeitos não era insignificância. Então me prometeu mundos e fundos.
JUIZ DE PAZ
Está bom, veremos o que poderei fazer. Queiram-se retirar. Estão conciliados; tenho mais que fazer (Saem os dous.) Sr. ESCRIVÃO, faça o favor de... (Levanta-se apressado e, chegando à porta, grita para fora:) Ó Sr. TOMÁS! Não se esqueça de deixar o leitão no chiqueiro!
TOMÁS
Sim senhor.
JUIZ DE PAZ
Era muito capaz de esquecer. Sr. ESCRIVÃO, leia o outro requerimento.
ESCRIVÃO DO JUIZ
Diz FRANCISCO ANTÔNIO, natural de Portugal, porém brasileiro, que tendo ele casado com Rosa de Jesus, trouxe esta por dote uma égua.
ESCRIVÃO DO JUIZ
"Ora, acontecendo ter a égua de minha mulher um filho, o meu vizinho JOSÉ da Silva diz que é dele, só porque o dito filho da égua de minha mulher saiu malhado como o seu cavalo. Ora, como os filhos pertencem às mães, e a prova disto é que a minha escrava Maria tem um filho que é meu, peço a V. S.
ESCRIVÃO DO JUIZ
ª mande o dito meu vizinho entregar-me o filho da égua que é de minha mulher. "
JUIZ DE PAZ
É de verdade que o senhor tem o filho da égua preso?
JOSÉ DA SILVA
É verdade; porém o filho me pertence, pois é meu, que é do cavalo.
JUIZ DE PAZ
Terá a bondade de entregar o filho a seu dono, pois é aqui da mulher do senhor.
JOSÉ DA SILVA
Mas, Sr. JUIZ...
JUIZ DE PAZ
Nem mais nem meios mais; entregue o filho, senão, cadeia.
JOSÉ DA SILVA
Eu vou queixar-me ao Presidente.
JUIZ DE PAZ
Pois vá, que eu tomarei a apelação.
JOSÉ DA SILVA
E eu embargo.
JUIZ DE PAZ
Embargue ou não embargue, embargue com trezentos mil diabos, que eu não concederei revista no auto do processo!
JOSÉ DA SILVA
Eu lhe mostrarei, deixe estar.
JUIZ DE PAZ
Sr. ESCRIVÃO, não dê anistia a este rebelde, e mande-o agarrar para soldado.
JOSÉ DA SILVA
Vossa Senhoria não se arrenegue! Eu entregarei o pequira.
JUIZ DE PAZ
Pois bem , retirem-se; estão conciliados. (Saem os dous.) Não há mais ninguém? Bom, está fechada a sessão. Hoje cansaram-me!
MANUEL JOÃO
Dá licença?
JUIZ DE PAZ
Quem é? Pode entrar.
MANUEL JOÃO
Um criado de Vossa Senhoria.
JUIZ DE PAZ
Oh, é o senhor? Queira ter a bondade de esperar um pouco, enquanto vou buscar o preso. (Abre uma porta do lado.) Queira sair para fora.

Cena 12

JUIZ DE PAZ · MANUEL JOÃO

Entra JOSÉ.
JUIZ DE PAZ
Aqui está o recruta; queira levar para a cidade. Deixe-o no quartel do Campo de Santana e vá levar esta parte ao general. (Dá-lhe um papel.)
MANUEL JOÃO
Sim senhor. Mas, Sr. JUIZ, isto não podia ficar para amanhã? Hoje já é tarde, pode anoitecer no caminho e o sujeitinho fugir.
JUIZ DE PAZ
Mas aonde há-de ele ficar? Bem sabe que não temos cadeias.
MANUEL JOÃO
Isto é o diabo!
JUIZ DE PAZ
Só se o senhor quiser levá-lo para sua casa e prendê-lo até amanhã, ou num quarto, ou na casa da farinha.
MANUEL JOÃO
Pois bem, levarei.
JUIZ DE PAZ
Sentido que não fuja.
MANUEL JOÃO
Sim senhor. Rapaz, acompanha-me. (Saem MANUEL JOÃO e JOSÉ.)

Cena 13

JUIZ DE PAZ

JUIZ DE PAZ
Agora vamos nós jantar. (Quando se dispõem para sair, batem à porta.) Mais um! Estas gentes pensam que um juiz é de ferro! Entre quem é!

Cena 14

JUIZ DE PAZ · JOSEFA JOAQUINA

Entra JOSEFA [Joaquina] com três galinhas penduradas na mão e uma cuia com ovos.
JUIZ DE PAZ
Ordena alguma cousa?
JOSEFA JOAQUINA
Trazia este presente para o Sr. JUIZ. Queira perdoar não ser cousa capaz. Não trouxe mais porque a peste deu lá em casa, que só ficaram estas que trago, e a carijó que ficou chocando.
JUIZ DE PAZ
Está bom; muito obrigado pela sua lembrança. Quer jantar?
JOSEFA JOAQUINA
Vossa Senhoria faça o seu gosto, que este é o meu que já fiz em casa.
JUIZ DE PAZ
Então, com sua licença.
JOSEFA JOAQUINA
Uma sua criada. (Sai.)

Cena 15

JUIZ DE PAZ · ESCRIVÃO DO JUIZ

JUIZ DE PAZ
Ao menos com esta visita lucrei. Sr. ESCRIVÃO, veja como estão gordas! Levam a mão abaixo. Então, que diz?
ESCRIVÃO DO JUIZ
Parecem uns perus.
JUIZ DE PAZ
Vamos jantar. Traga estes ovos. (Saem.)

Cena 16

MARIA ROSA · ANINHA

Casa de MANUEL JOÃO. Entram MARIA ROSA e ANINHA com um samborá na mão.
MARIA ROSA
Estou moída! Já mexi dous alqueires de farinha.
ANINHA
Minha mãe, aqui está o café.
MARIA ROSA
Bota aí. Aonde estará aquele maldito negro?

Cena 17

MANUEL JOÃO · MARIA ROSA · ANINHA

Entram MANUEL JOÃO e JOSÉ.
MANUEL JOÃO
Deus esteja esta casa.
MARIA ROSA
MANUEL JOÃO!...
ANINHA
Meu pai!...
MANUEL JOÃO
Faça o favor de entrar.
ANINHA
Meu Deus, é ele!
MARIA ROSA
O que é isto? Não foste para a cidade?
MANUEL JOÃO
Não, porque era tarde e não queria que este sujeito fugisse no caminho.
MARIA ROSA
Então quando vais?
MANUEL JOÃO
Amanhã de madrugada. Este amigo dormirá trancado naquele quarto. Donde está a chave?
MARIA ROSA
Na porta.
MANUEL JOÃO
Amigo, venha cá. (Chega à porta do quarto e diz:) Ficará aqui até amanhã. Lá dentro há uma cama; entre. (JOSÉ entra.) Bom, está seguro. Senhora, vamos para dentro contar quantas dúzias temos de bananas para levar amanhã para a cidade. A chave fica em cima da mesa; lembrem-se, se me esquecer. (Saem MANUEL JOÃO e MARIA ROSA.)

Cena 18

ANINHA · JOSÉ

ANINHA
Vou dar-lhe escapula... Mas como se deixou prender?... Ele me contará; vamos abrir. (Pega na chave que está sobre a mesa e abre a porta.) Saia para fora.
JOSÉ
Oh, minha ANINHA, quanto te devo!
ANINHA
Deixemo-nos de cumprimentos. Diga-me, como se deixou prender?
JOSÉ
Assim que botei os pés fora desta porta, encontrei com o juiz, que me mandou agarrar.
ANINHA
Coitado!
JOSÉ
E se teu pai não fosse incumbido de me levar, estava perdido, havia ser soldado por força.
ANINHA
Se nós fugíssemos agora para nos casarmos?
JOSÉ
Lembras muito bem. O vigário a estas horas está na igreja, e pode fazer-se tudo com brevidade.
ANINHA
Pois vamos, antes que meu pai venha.
JOSÉ
Vamos. (Saem correndo.)

Cena 19

MARIA ROSA · MANUEL JOÃO

MARIA ROSA
Ó ANINHA! ANINHA" Aonde está esta maldita? ANINHA! Mas o que é isto? Esta porta aberta? Ah! Sr. MANUEL JOÃO! Sr. MANUEL JOÃO!
MANUEL JOÃO
O que é lá?
MARIA ROSA
Venha cá depressa. (Entra MANUEL JOÃO em mangas de camisa.)
MANUEL JOÃO
Então, o que é?
MARIA ROSA
O soldado fugiu!
MANUEL JOÃO
O que dizes, mulher?!
MARIA ROSA
Olhe!
MANUEL JOÃO
O diabo! (Chega-se para o quarto.) É verdade, fugiu! Tanto melhor, não terei o trabalho de o levar à cidade.
MARIA ROSA
Mas ele não fugiu só...
MANUEL JOÃO
Hem?!
MARIA ROSA
ANINHA fugiu com ele.
MANUEL JOÃO
ANINHA?!
MARIA ROSA
Sim.
MANUEL JOÃO
Minha filha fugir com um vadio daqueles! Eis aqui o que fazem as guerras do Rio Grande!
MARIA ROSA
Ingrata! Filha ingrata!
MANUEL JOÃO
Dê-me lá minha jaqueta e meu chapéu, que quero ir à casa do juiz de paz fazer queixa do que nos sucede. Hei-de mostrar àquele melquitrefe quem é MANUEL JOÃO... Vá, senhora, não esteja a choramingar.

Cena 20

AMBOS · MANUEL JOÃO · ANINHA · JOSÉ · MARIA ROSA · TODOS

Entram JOSÉ e ANINHA e ajoelham-se aos pés de MANUEL JOÃO.
AMBOS
Senhor!
MANUEL JOÃO
O que é lá isso?
ANINHA
Meu pai, aqui está o meu marido.
MANUEL JOÃO
Teu marido?!
JOSÉ
Sim senhor, seu marido. Há muito tempo que nos amamos, e sabendo que não daríeis o vosso consentimento, fugimos e casamos na freguesia.
MANUEL JOÃO
E então? Agora peguem com um trapo quente. Está bom, levantem-se; já agora não há remédio. (ANINHA e JOSÉ levantam-se. ANINHA vai abraçar a mãe.)
ANINHA
E minha mãe, me perdoa?
MARIA ROSA
E quando é que eu não hei-de perdoar-te? Não sou tua mãe? (Abraçam-se.)
MANUEL JOÃO
É preciso agora irmos dar parte ao juiz de paz que você já não pode ser soldado, pois está casado. Senhora, vá buscar minha jaqueta. (Sai MARIA ROSA.) Então o senhor conta viver à minha custa, e com o meu trabalho?
JOSÉ
Não senhor, também tenho braços para ajudar; e se o senhor não quer que eu aqui viva, irei para a Corte.
MANUEL JOÃO
E que vai ser lá?
JOSÉ
Quando não possa ser outra cousa, serei ganhador da Guarda Nacional. Cada ronda rende mil-réis e cada guarda três mil-réis.
MANUEL JOÃO
Ora, vá-se com os diabos, não seja tolo. (Entra MARIA ROSA com a jaqueta e chapéu, e de xale.)
MARIA ROSA
Aqui está.
MANUEL JOÃO
Vamos pra casa do juiz.
TODOS
Vamos. (Saem.)

Cena 21

JUIZ DE PAZ · ESCRIVÃO DO JUIZ · MANUEL JOÃO

Casa do JUIZ. Entra o JUIZ de Paz e [o] ESCRIVÃO.
JUIZ DE PAZ
Agora que estamos com a pança cheia, vamos trabalhar um pouco. (Assentam-se à mesa.)
ESCRIVÃO DO JUIZ
Vossa Senhoria vai amanhã à cidade?
JUIZ DE PAZ
Vou, sim. Quero-me aconselhar com um letrado para saber como hei-de despachar alguns requerimentos que cá tenho.
ESCRIVÃO DO JUIZ
Pois Vossa Senhoria não sabe despachar?
JUIZ DE PAZ
Eu? Ora essa é boa! Eu entendo cá disso? Ainda quando é algum caso de embigada, passe; mas casos sérios, é outra cousa.
JUIZ DE PAZ
Eu lhe conto o que me ia acontecendo um dia. Um meu amigo me aconselhou que, todas as vezes que eu não soubesse dar um despacho, que desse o seguinte: "Não tem lugar. " Um dia apresentaram-me um requerimento de certo sujeito, queixando-se que sua mulher não queria viver com ele, etc. Eu, não sabendo que despacho dar, dei o seguinte: "Não tem lugar.
JUIZ DE PAZ
" Isto mesmo é que queria a mulher; porém [o marido] fez uma bulha de todos os diabos; foi à cidade, queixou-se ao Presidente, e eu estive quase não quase suspenso. Nada, não me acontece outra.
ESCRIVÃO DO JUIZ
Vossa Senhoria não se envergonha, sendo um juiz de paz?
JUIZ DE PAZ
Envergonhar-me de quê? O senhor ainda está muito de cor. Aqui para nós, que ninguém nos ouve, quantos juízes de direito há por estas comarcas que não sabem aonde têm sua mão direita, quanto mais juízes de paz... E além disso, cada um faz o que sabe. (Batem.) Quem é?
MANUEL JOÃO
Um criado de Vossa Senhoria.
JUIZ DE PAZ
Pode entrar.

Cena 22

JUIZ DE PAZ · MANUEL JOÃO · ANINHA · JOSÉ · MARIA ROSA

Entram MANUEL JOÃO, MARIA ROSA, ANINHA e JOSÉ.
JUIZ DE PAZ
Então, o que é isto? Pensava que já estava longe daqui!
MANUEL JOÃO
Não senhor, ainda não fui.
JUIZ DE PAZ
Isso vejo eu.
MANUEL JOÃO
Este rapaz não pode ser soldado.
JUIZ DE PAZ
Oh, uma rebelião? Sr. ESCRIVÃO, mande convocar a Guarda Nacional e oficie ao Governo.
MANUEL JOÃO
Vossa Senhoria não se aflija, este homem está casado.
JUIZ DE PAZ
Casado?!
MANUEL JOÃO
Sim senhor, e com minha filha.
JUIZ DE PAZ
Ah, então não é rebelião... Mas vossa filha casada com um biltre destes?
MANUEL JOÃO
Tinha-o preso no meu quarto para levá-lo amanhã para a cidade; porém a menina, que foi mais esperta, furtou a chave e fugiu com ele.
ANINHA
Sim senhor, Sr. JUIZ. Há muito tempo que o amo, e como achei ocasião, aproveitei.
JUIZ DE PAZ
A menina não perde ocasião! Agora, o que está feito está feito. O senhor não irá mais para a cidade, pois já está casado.
JUIZ DE PAZ
Assim, não falemos mais nisso. Já que estão aqui, hão-de fazer o favor de tomar uma xícara de café comigo, e dançarmos antes disto uma tirana. Vou mandar chamar mais algumas pessoas para fazerem a roda maior. (Chega à porta.) Ó Antônio! Vai à venda do Sr.
JUIZ DE PAZ
Manuel do Coqueiro e dize aos senhores que há pouco saíram daqui que façam o favor de chegarem até cá. (Para JOSÉ:) O senhor queira perdoar se o chamei de biltre; já aqui não está quem falou.
JOSÉ
Eu não me escandalizo; Vossa Senhoria tinha de algum modo razão, porém eu me emendarei.
MANUEL JOÃO
E se não se emendar, tenho um reio.
JUIZ DE PAZ
Senhora Dona, queira perdoar se ainda a não cortejei. (Cumprimenta.)
MARIA ROSA
Uma criada de Sua Excelência.
JUIZ DE PAZ
Obrigado, minha senhora... Aí chegam os amigos.

Cena 23

JUIZ DE PAZ · TODOS · INÁCIO JOSÉ · OS OUTROS · MANUEL JOÃO · TOMÁS …

Os mesmos e os que estiveram em cena.
JUIZ DE PAZ
Sejam bem-vindos, meus senhores. (Cumprimentam-se.) Eu os mandei chamar para tomarem uma xícara de café comigo e dançarmos um fado em obséquio ao Sr. MANUEL JOÃO, que casou sua filha hoje.
TODOS
Obrigado a Vossa Senhoria.
INÁCIO JOSÉ
Estimarei que sua filha seja feliz.
OS OUTROS
Da mesma sorte.
MANUEL JOÃO
Obrigado.
JUIZ DE PAZ
Sr. ESCRIVÃO, faça o favor de ir buscar a viola. (Sai o ESCRIVÃO.) Não façam cerimônia; suponham que estão em suas casas... Haja liberdade. Esta casa não é agora do juiz de paz - é de João Rodrigues. Sr. TOMÁS, faz-me o favor? (TOMÁS chega-se para o juiz e este o leva para um canto.) O leitão ficou no chiqueiro?
TOMÁS
Ficou, sim senhor.
JUIZ DE PAZ
Bom. (Para os outros:) Vamos arranjar a roda. A noiva dançará comigo, e o noivo com sua sogra. Ó Sr. MANUEL JOÃO, arranje outra roda... Vamos, vamos! (Arranjam as rodas; o escrivão entra com uma viola.) Os outros senhores abanquem-se. Sr. ESCRIVÃO, ou toque, ou dê a viola a algum dos senhores. Um fado bem rasgadinho... bem choradinho...
MANUEL JOÃO
Agora sou eu gente!
JUIZ DE PAZ
Bravo, minha gente! Toque, toque! (Um dos atores toca a tirana na viola; os outros batem palmas e caquinhos, e os mais dançam.)
TOCADOR
Ganinha, minha senhora, Da maior veneração; Passarinho foi-se embora. Me deixou penas na mão.
TODOS
Se me dás que comê, Se me dás que bebê, Se me pagas as casas, Vou morar com você. (Dançam.)
JUIZ DE PAZ
Assim, meu povo! Esquenta, esquenta!...
MANUEL JOÃO
Aferventa!
TOCADOR
Em cima daquele morro Há um pé de ananás; Não há homem neste mundo Como o nosso juiz de paz.
TODOS
Se me dás que comê, Se me dás que bebê, Se me pagas as casas, Vou morar com você.
JUIZ DE PAZ
Aferventa, aferventa!...

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