Vamos para a Corte

O Juiz de Paz na Roça

Você faz:
JOSÉ
Adeus, minha Aninha!
ANINHA
Fique quieto. Não gosto destes brinquedos. Eu quero casar-me com o senhor, mas não quero que me abrace antes de nos casarmos. Esta gente quando vai à Corte, vem perdida. Ora diga-me, concluiu a venda do bananal que seu pai lhe deixou?
JOSÉ
Concluí.
ANINHA
Se o senhor agora tem dinheiro, por que não me pede a meu pai?
JOSÉ
Dinheiro? Nem vintém!
ANINHA
Nem vintém! Então o que fez do dinheiro? É assim que me ama? (Chora.)
JOSÉ
Minha Aninha, não chores. Oh, se tu soubesses como é bonita a Corte! Tenho um projeto que te quero dizer.
ANINHA
Qual é?
JOSÉ
Você sabe que eu agora estou pobre como Jó, e então tenho pensado em uma cousa. Nós nos casaremos na freguesia, sem que teu pai o saiba; depois partiremos para a Corte e lá viveremos.
ANINHA
Mas como? Sem dinheiro?
JOSÉ
Não te dê isso cuidado: assentarei praça nos Permanentes.
ANINHA
E minha mãe?
JOSÉ
Que fique raspando mandioca, que é ofício leve. Vamos para a Corte, que você verá o que é bom.
ANINHA
Mas então o que é que há lá tão bonito?
JOSÉ
Eu te digo. Há três teatros, e um deles maior que o engenho do capitão-mor.
ANINHA
Oh, como é grande!
JOSÉ
Representa-se todas as noites. Pois uma mágica... Oh, isto é cousa grande!
ANINHA
O que é mágica?
JOSÉ
Mágica é uma peça de muito maquinismo.
ANINHA
Maquinismo?
JOSÉ
Sim, maquinismo. Eu te explico. Uma árvore se vira em uma barraca; paus viram-se em cobras, em um homem vira-se em macaco.
ANINHA
Em macaco! Coitado do homem!
JOSÉ
Mas não é de verdade.
ANINHA
Ah, como deve ser bonito! E tem rabo?
JOSÉ
Tem rabo, tem.
ANINHA
Oh, homem!
JOSÉ
Pois o curro dos cavalinhos! Isto é que é cousa grande! Há uns cavalos tão bem ensinados, que dançam, fazem mesuras, saltam, falam, etc. Porém o que mais me espantou foi ver um homem andar em pé em cima do cavalo.
ANINHA
Em pé? E não cai?
JOSÉ
Não. Outros fingem-se bêbados, jogam os socos, fazem exercício, e tudo isto sem caírem. E há um macaco chamado o macaco Major, que é coisa de espantar.
ANINHA
Há muitos macacos lá?
JOSÉ
Há, e macacas também.
ANINHA
Que vontade tenho eu de ver todas estas cousas!
JOSÉ
Além disto há outros muitos divertimentos. Na Rua do Ouvidor há um cosmorama, na Rua de São Francisco de Paula outro, e no Largo uma casa aonde se vêem muitos bichos cheios, muitas conchas, cabritos com duas cabeças, porcos com cinco pernas, etc.
ANINHA
Quando é que você pretende casar-se comigo?
JOSÉ
O vigário está pronto para qualquer hora.
ANINHA
Então, amanhã de manhã.
JOSÉ
Pois sim.
ANINHA
Aí vem meu pai! Vai-te embora antes que ele te veja.
JOSÉ
Adeus, até amanhã de manhã.
ANINHA
Olhe lá, não falte!

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