Como Fernanda Torres chegou a Ainda Estou Aqui

O convite, o contracasting e a preparação de Fernanda Torres para viver Eunice Paiva, reconstituídos sem inventar uma audição.

Publicado em · por · Método editorial

Fernanda Torres não entrou em Ainda Estou Aqui depois de uma maratona de testes conhecida. As fontes disponíveis contam outra história: ela leu o roteiro como amiga de Walter Salles, acreditou que não seria considerada para Eunice Paiva e depois recebeu o convite do diretor. O ponto decisivo não foi um truque de sala de casting. Foi um contracasting que enfrentava duas imagens já coladas à atriz: sua idade em relação à personagem e décadas de associação com a comédia.

Essa diferença importa. Inventar uma audição deixaria a história mais redonda, mas falsa. O percurso documentado é mais útil para um ator porque mostra o que acontece quando a direção enxerga uma possibilidade que nem o intérprete estava oferecendo conscientemente naquele momento.

Antes do convite, ela se achava fora do papel

Em entrevista direta à Vogue, publicada em 11 de fevereiro de 2025, Torres disse que leu o roteiro primeiro como amiga do diretor. Ela sabia que não era a primeira opção. Também considerava que sua idade não correspondia à de Eunice na parte inicial da história e que sua trajetória recente na comédia televisiva poderia afastá-la de um drama tão contido.

O Los Angeles Times registrou em dezembro de 2024 a mesma percepção: Torres pensava ter deixado de caber no cinema dramático de Salles. Para ela, ser considerada para um papel dessa natureza tinha peso justamente porque contrariava a prateleira onde imaginava ter sido colocada.

A cena concreta é menos espetacular que uma fila de candidatos num corredor. Há um roteiro lido, uma relação profissional antiga e uma atriz que não imagina que o café marcado pelo diretor terminará em convite.

O convite veio, não uma audição documentada

Em entrevista publicada pela IstoÉ Dinheiro, Torres contou que Salles lhe entregou o roteiro e, em outro momento, a chamou para tomar um café. Ela pensou que a conversa poderia ser sobre escrever um roteiro. Foi então convidada para interpretar Eunice e aceitou na hora.

Essa versão é compatível com o relato que ela deu ao programa Good Morning America, repercutido pela CNN Brasil em 13 de fevereiro de 2025. A atriz explicou que não se via como escolha inicial porque era mais velha que Eunice no começo do filme.

As fontes não descrevem sides, callback, teste gravado ou disputa final entre atrizes. Portanto, não há base para preencher essas lacunas. O dado seguro é o convite de Walter Salles depois de um processo em que outra escolha havia sido considerada e a própria Torres não esperava receber o papel.

Depois do sim, começou a preparação

Aceitar o papel não encerrou o trabalho. A atriz contou à IstoÉ que procurou preparação antes mesmo da primeira leitura. Queria chegar à mesa com alguma construção, não apenas com o peso simbólico de representar Eunice Paiva nos ombros.

Em outra entrevista reproduzida pelo Estado de Minas, Torres descreveu um mês de trabalho com a atriz e preparadora Helena Varvaki antes dessa leitura. Entre os materiais mencionados estava um exercício ligado à cena da prisão: deitar e escutar. Mais tarde, Amanda Gabriela participou do processo voltado à relação da família.

O gesto cabe numa imagem simples. Em vez de encher a margem do roteiro com exclamações, a atriz se deita e escuta. O trabalho prepara um corpo capaz de conter informação. Isso conversa diretamente com a característica que ela identificou em Eunice: uma mulher que não expõe tudo o que sente e precisa continuar conduzindo a família.

A contenção virou ação, não ausência

Na entrevista ao Los Angeles Times, Torres falou sobre descobrir a força da contenção. Seu repertório como atriz poderia empurrá-la para demonstrar choro, raiva ou humor. Eunice exigia outra musculatura: suportar, organizar a casa, proteger os filhos e agir sem transformar cada emoção em espetáculo.

Contenção não significa ficar imóvel com o rosto neutro. Imagina uma mesa de jantar com cinco filhos, pratos ainda sobre a toalha e uma ausência que ninguém consegue explicar. A personagem precisa responder perguntas, observar a porta e decidir o que não dizer. Cada tarefa segura uma pressão diferente.

A CNN Brasil também publicou o relato de Walter Salles sobre o trabalho da atriz. Segundo a matéria, o diretor destacou a dedicação de Torres à preparação e a forma como sua interpretação passou a se confundir, para ele, com a figura de Eunice. É a confirmação independente de que o resultado não nasceu apenas do acerto intuitivo do convite.

A lição prática para o ator

O caso não ensina que basta conhecer um diretor ou esperar ser visto de outra maneira. Também não prova que o contracasting sempre vencerá a imagem pública de um ator. A lição jogável é mais modesta: não prepara apenas o tipo que você acredita vender.

Escolhe uma cena que contrarie sua prateleira habitual. Se costuma receber material expansivo, trabalha uma situação em que precisa esconder uma notícia enquanto dobra uma camisa. Se costuma ser chamado para personagens contidos, pega uma cena em que precisa conquistar uma sala barulhenta. Não tenta provar versatilidade com caretas. Muda a tarefa, o ritmo e a relação.

Depois, grava duas versões. Na primeira, mostra a emoção. Na segunda, executa uma ação concreta e deixa a emoção aparecer apenas onde ela romper a tarefa. O guia para gravar self-tape sozinho ajuda a organizar enquadramento e parceiro de leitura sem roubar atenção da cena.

Fernanda Torres chegou ao papel porque Walter Salles decidiu enxergar uma combinação que ela própria não esperava. O que veio depois foi preparação específica: leitura, escuta, relação familiar e contenção. Não houve, nas fontes consultadas, a audição perfeita que resolveu tudo em cinco minutos. Houve convite, responsabilidade e trabalho diante de um roteiro que pedia menos exibição e mais resistência.

Sources